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Decisão de carreira

Se eu fosse pedir demissão hoje, faria isso antes

Os dados de 2026 mostram que o medo não evita a demissão ruim, só atrasa. O que separa quem sai bem de quem sai mal não é coragem, é saber o que se quer.

Lauany Pires · · 6 min de leitura

Você já pensou em pedir demissão. Talvez mais de uma vez. E toda vez que a ideia volta, vem junto a mesma voz: espera o momento certo, não sai no impulso, aguenta mais um pouco.

Uma pesquisa com mais de duas mil pessoas no Brasil, feita em abril de 2026, mostrou o que acontece com quem escuta essa voz. 58% ficaram no emprego mais tempo do que queriam, por medo. Mais da metade esperou um momento certo que não chegou.

Querer sair é mais comum do que parece

Em março de 2026, a FGV-EAESP, junto com a Flash e a Talenses, publicou o Índice Engaja S/A, com 2.736 trabalhadores numa amostra que espelha o mercado formal brasileiro.

  • 66% já consideraram pedir demissão.
  • 16%, uma em cada seis pessoas, dizem que a ideia volta com regularidade.
  • Entre os desengajados, 93% já pensaram em sair e 51% pensam nisso com frequência.
  • Entre os engajados, quem está bem no trabalho, 10% têm essa vontade de forma recorrente.

Esse último número é o que mais me chama atenção. Querer sair não é coisa só de quem já não se identifica com o trabalho.

Nos atendimentos eu escuto isso de um jeito muito parecido. A pessoa passa um tempo bem, acha que passou, e aí chega um dia em que volta tudo. É uma montanha-russa: querer sair quando está tudo tranquilo parece ingratidão, e querer sair num dia ruim parece impulso.

A mesma pesquisa perguntou qual é o maior problema de quem está insatisfeito. Só 16% responderam salário e benefícios, e 13% falta de perspectiva de crescimento. Para a grande maioria, o maior problema não é o dinheiro. Guarde esse dado, porque ele volta mais adiante.

O medo não evita a demissão ruim. Ele atrasa.

O medo tem um argumento bom: se eu esperar o momento certo, evito uma decisão ruim.

Só que, na pesquisa de abril, além dos 58% que ficaram mais tempo do que queriam, 27% adiaram a decisão até chegar no limite. Pense no que isso significa. O medo não impediu essas pessoas de sair. Elas saíram do mesmo jeito, só que mais tarde, quando já não dava para pensar, planejar ou comparar.

E do que exatamente elas tinham medo? Um quarto, 25%, adiou por medo da reação do chefe. Quando o momento chegou, 74% disseram que se sentiram seguras na hora de contar. O medo estava concentrado numa conversa em que, na hora, a maioria se sentiu segura.

Agora repare nesta sequência. Perguntadas o que é essencial antes de pedir demissão, 36% falaram em ter outro emprego garantido e 35% em ter uma reserva. Elas sabem o que precisariam ter. Mesmo assim, 49% saíram sem nenhum planejamento financeiro.

Isso não é falta de informação. Quem espera até o limite não sai depois de ter se preparado. Sai quando não aguenta mais.

Esperar não é o problema. O problema é o que você faz enquanto espera.

Tem quem espere se preparando: juntando reserva, olhando o mercado, tentando entender o que quer. E tem quem espere torcendo, para a vontade passar ou para o momento certo chegar por si.

Esperar torcendo cobra um preço. Quem fica mais tempo do que queria vai ficando mais cansado, com menos energia e menos paciência, não só para o trabalho. E quando finalmente sai, sai esgotado, sem força nem para pensar no que vem depois.

Quem sai bem sabe para onde vai

A pesquisa também perguntou por que as pessoas saíram. Os dois motivos mais citados foram ambiente ruim, com 23%, e uma oportunidade melhor, com 22%.

Repare na diferença. No primeiro, a pessoa sai porque não aguenta mais onde está. No segundo, sai porque encontrou um lugar para onde ir.

É exatamente isso que eu vejo nos atendimentos. Quem chega querendo pedir demissão sabe com precisão o que não está funcionando: o tipo de demanda, o horário, o que aquele trabalho exige todo dia. A lista vem pronta, e vai muito além do salário, como os dados já mostravam.

Quando eu pergunto o que a pessoa quer no próximo trabalho, a lista acaba. As respostas mais comuns são que não há clareza do que se quer, ou que se quer algo com mais propósito.

Ela sabe que não quer mais aquele tipo de demanda, aquele horário, aquele ritmo. Mas não sabe que tipo de demanda quer, que rotina quer, com que tipo de gente quer trabalhar.

Não saber responder isso não quer dizer que há algo errado com você. É que a maioria nunca parou para pensar nisso de verdade. A faculdade, o primeiro emprego, a promoção, a troca de empresa: muita coisa foi acontecendo pelo que parecia óbvio naquele momento. O incômodo você sente todo dia, sem procurar. O que você quer, só descobre se parar para pensar.

Insatisfação e insegurança não são a mesma coisa

Tem outro padrão que aparece muito. A pessoa chega com uma certeza, quero mudar de área, quero mudar de profissão, e quando a gente olha mais a fundo o problema não era esse. Era medo, insegurança, a sensação de não estar dando conta. E isso vai junto para qualquer lugar.

Se o que trava é uma insegurança, pedir demissão não é necessariamente a melhor resposta. O contrário também acontece: tem quem ache que é insegurança, que é só aguentar mais um pouco, quando na verdade a pessoa realmente não quer mais fazer aquele trabalho.

Saber qual das duas coisas está acontecendo muda a decisão inteira.

O preparo que quase ninguém faz

Eu sei disso porque eu também passei por isso.

Antes de voltar para a psicologia, trabalhei alguns anos com marketing e cheguei a head de marketing. E quando eu saí, eu saí no limite. Sabia muito bem do que estava fugindo. Mas se alguém me perguntasse o que eu queria no trabalho seguinte, eu não saberia responder.

Hoje eu sei o que faria diferente. Teria parado para entender o que realmente me movia. Porque eu descobri depois que eram as pessoas, não os números e não as metas. Passei anos num trabalho medido em números sem ter clareza de que a parte que me empolgava era outra.

Se eu tivesse entendido isso antes, talvez eu nem tivesse saído. Teria tentado fazer mais do que me movia e menos do que me esgotava, nem que isso significasse mudar de função. Porque eu saberia com muito mais clareza o que pedir e o que negociar.

Quando se fala em se preparar para pedir demissão, todo mundo pensa em coragem ou em reserva financeira. Mas o preparo que quase ninguém faz é outro: saber o que você quer, e não só o que você não aguenta mais.

E quando você sabe, para de enxergar só duas opções. Você não precisa pedir demissão amanhã. E também não precisa aguentar tudo do jeito que está para sempre.

Se você quer tomar essa decisão antes de chegar no limite, o Antes de Pedir Demissão foi feito para isso: aulas em vídeo e um caderno de trabalho para você fazer no seu tempo. Se preferir conversar sobre o seu caso, o alinhamento estratégico é uma sessão individual de 50 minutos.

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